Clebio Oliveira e o elogio ao estrangeiro

Atualizado: 17 de out. de 2019

Os sons das línguas faladas pelos povos do norte produziam aos ouvidos gregos algo como “bar-bar”,  o que se transformou em bárbaros. Este é um termo atribuido à pessoa tida como não civilizada e até vista como inferior ou selvagem. Desta forma, era como se repetir esse discurso transformasse a cultura, os valores e o idioma em modelos padronizados para todos os outros povos. Com a evolução dos tempos outros significados foram atribuidos para a palavra barbaro, como exemplo o extraordinário. O extraordinário pode ser bom, maravilhoso, esplêndido e deslumbrante, assim como, a dança ensinada por Clebio Oliveira durante a 4ª edição do projeto Reciclarte no Recife. Afinal de contas, é uma palavra muito pronunciada pelo criador durante suas aulas.

Clébio dedicou um momento desta oficina para nos ensinar a respeitar a si mesmo, a não se obrigar a viver todos movimentos sugeridos por ele porque, geralmente, os dançarinos se sentem obrigados a executar movimentos que foram propostos nas aulas como se o educador tivesse controle sobre eles. Nos ofereceu um momento do dia para dar atenção às necessidades pessoais, como alongar uma parte do corpo que precisa e, ainda, a dominar o desequilíbrio do corpo. E, ainda, fomos incentivados a resgatar a alegria, a malemolência e a efervescência do forró, afro e frevo, assim como a questionar sobre o afastamento destas particularidades regionais nas posturas dos dançantes contemporâneos.

Foram muitos aprendizados, como provar que é possível mover-se pensando no seu próprio corpo e, também,  mover a si mesmo com a intensão de mobilizar tudo ao redor. O patrimônio material de si, também, move aquilo que é imaterial e vice-versa. A potência está presente na matéria do nosso corpo e em como ela se relaciona com a rede de átomos que nos cerca.

Houve momento em que o coreógrafo nos pediu para repetir uma sequência de movimentos coreografados e alertou que a maioria dos dançarinos confunde concentração com contenção. Isso porque na execução há desejo de executar o movimento ‘’certo’’, ser o clone até nos mínimos detalhes para se apresentar limpo, tanto que alguns dançam em apneia... Ser limpo é um gíria na dança usada quando o movimento esta o mais próximo daquele dito pelo coreógrafo e, ao ser exibido em sincronia com outro dançante, dar a impressão de coesão entre o coletivo.

Clébio sugere seguir a forma das propostas de movimentos para encontrar harmonia nas diferenças e nos entusiasmar a se divertir. Mesmo em sequências pré-estabelecidas nos apropriemos dos princípios da movimentação para dançar com mais espontaneidade e respeitarmos mais nossas individualidades. Na sua linguagem autoral em dança, por exemplo, dançamos como se uma bola de tênis desloca-se internamente entre as articulações ósseas, nos dirigindo a se mover visitando formas pouco convencionais e a usar o mínimo de esforço muscular.


Em outra hora legal, nos deslocamos no espaço mudando para diferenças dinâmicas de movimento sem causar uma interferência no transitar desses estados corporais. Em diferentes lugares da sala foram atribuídos proposições e nos incitado transitar entre eles, sairmos do movimento lento e de forma não abrupta formos para o setor do salto. Aprendemos a migrar de forma fluida quando as culturas dos territórios são distintas. Interessante comparar essa lição com a história de vida de Clébio, que nasceu em Natal (RN), dançou na Companhia Deborah Colker (RJ), e desde 2008 mora na capital da Alemanha: Berlim.   

É justamente esse espírito valoroso, corajoso e destemido dos guerreiros bárbaros que pode a princípio soar estranho, mas é nobre para quebrar padrões antes naturalizados.

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